O que é IP
O que e IP: entenda o Internet Protocol, a diferenca entre IPv4 e IPv6, IP público e privado, historia ARPANET e RFC 791. Explicacao completa com exemplos.
IP (Internet Protocol) e o sistema de endereçamento e roteamento que permite que qualquer dispositivo na internet encontre e se comunique com outro. Sem ele, um pacote de dados não teria como sair do seu notebook e chegar ao servidor certo no outro lado do mundo. O protocolo foi formalizado em setembro de 1981 pelo RFC 791 e, quarenta e quatro anos depois, ainda governa cada conexão que você faz online. O que mudou desde então, como o Brasil se encaixa nessa história e o que acontece nós bastidores quando você digita um endereço no navegador, e o que este artigo explica com precisao.
Neste artigo
- O que e IP: definição formal e estrutura do protocolo
- História: da ARPANET ao RFC 791
- Modelo TCP/IP: as quatro camadas e o papel do IP
- Como o IP funciona na prática
- Estrutura do IPv4: cabecalho, campos e notacao CIDR
- Tipos de endereço IP: público, privado, dinâmico e estático
- IP no Brasil: LACNIC, provedores e regulamentação
- Conceitos errados frequentes sobre IP
- Perguntas frequentes
O que e IP: definição formal e estrutura do protocolo
IP (Internet Protocol) e o protocolo de camada de rede (camada 3 no modelo OSI, camada de internet no modelo TCP/IP) responsável por duas funções fundamentais: endereçamento e roteamento. Ele identifica cada dispositivo na rede com um número único e define como pacotes de dados percorrem múltiplas redes para chegar ao destino.
O IP opera no modelo best-effort delivery. Isso significa que ele tenta entregar pacotes da melhor forma possível, mas não garante ordem de chegada, não garante que todos os pacotes cheguem e não detecta corrupcao de dados além do checksum do cabecalho. Confiabilidade, reordenamento e controle de fluxo ficam por conta do TCP, protocolo da camada superior.
IPv4 versus IPv6: as duas versões em uso
Existem duas versões do IP em operação simultanea hoje. O IPv4, especificado pelo RFC 791 (1981), usa endereços de 32 bits representados em quatro octetos decimais separados por ponto, como 192.168.0.1. O espaço total e de 2^32 = 4.294.967.296 endereços. O IPv6, especificado pelo RFC 8200 (2017), usa 128 bits em oito grupos hexadecimais separados por dois-pontos, como 2001:db8::1, com 2^128 endereços possíveis. Os dois protocolos coexistem via dual-stack, onde dispositivos e roteadores suportam os dois simultaneamente.
Fundamentos acadêmicos do IP
Os livros de referência em redes de computadores descrevem o Internet Protocol de forma consistente com a especificacao original. Tanenbaum, no clássico Redes de Computadores, coloca o IP no centro da comunicação fim a fim:
"A camada de rede e a camada mais baixa que lida com a transmissão fim a fim."
Andrew S. Tanenbaum - Redes de Computadores, 4a edição, p. 267 (Campus, 2004)
Para Peterson & Davie em Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas, o protocolo e identificado por seus criadores e pelo seu modelo de entrega sem garantias:
"O Internet Protocol (IP) e a ferramenta chave usada hoje para a criacao de inter-redes escalaveis e heterogeneas. Ele era conhecido originalmente como protocolo Kahn-Cerf, fazendo referência aos nomes de seus inventores."
Larry L. Peterson, Bruce S. Davie - Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas, 5a edição, p. 125 (Elsevier, 2013)
"Esse modelo de serviço também e chamado de melhor esforco porque, embora o IP faca todo o esforco possível para entregar os datagramas, ele não oferece garantias de que ira de fato faze-lo."
Larry L. Peterson, Bruce S. Davie - Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas, 5a edição, p. 126 (Elsevier, 2013)
O conceito de hierarquia de endereços, que sustenta toda a lógica de roteamento, aparece explicito em Peterson & Davie:
"os endereços IP são hierarquicos, significando que eles são compostos de várias partes que correspondem a algum tipo de hierarquia na inter-rede. Especificamente, os endereços IP consistem em duas partes, normalmente chamadas de parte de rede e parte de host."
Larry L. Peterson, Bruce S. Davie - Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas, 5a edição, p. 131 (Elsevier, 2013)
História: da ARPANET ao RFC 791
A origem do IP esta na ARPANET, rede experimental criada em 1969 pelo Departamento de Defesa dos EUA para interligar computadores de universidades e laboratorios de pesquisa. O protocolo original da ARPANET era o NCP (Network Control Program), que funcionava apenas dentro dessa rede fechada.
Vint Cerf, Bob Kahn e o artigo de 1974
Em maio de 1974, Vint Cerf e Bob Kahn publicaram "A Protocol for Packet Network Intercommunication" na revista IEEE Transactions on Communications. Esse artigo introduziu o conceito de um protocolo de internetworking capaz de interligar redes heterogeneas. O TCP e o IP foram concebidos juntos nesse paper e separados como protocolos distintos em 1978, quando ficou claro que as funções de roteamento e confiabilidade eram melhor tratadas em camadas separadas.
RFC 791: a especificacao definitiva
Em setembro de 1981, Jon Postel publicou o RFC 791, a especificacao formal do IPv4. O documento define o formato completo do datagrama IP: cabecalho de 20 bytes minimos com 14 campos, incluindo Version (4 bits), IHL (4 bits), DSCP/ECN (8 bits), Total Length, Identification, Flags e Fragment Offset (para fragmentação), TTL (Time to Live), Protocol (tipo do payload: 6 para TCP, 17 para UDP, 1 para ICMP), Header Checksum, endereços Source e Destination de 32 bits cada, e campo Options opcional.
O IANA (Internet Assigned Numbers Authority) foi criado para coordenar a distribuicao dos blocos de endereços IPv4 entre os registros regionais. Em fevereiro de 2011, o IANA distribuiu os últimos cinco blocos /8 disponíveis. O espaço de 4,29 bilhoes de endereços, pensado para uma rede experimental de poucas dezenas de maquinas nós anos 1970, esgotou.
| Ano | Evento | Referência |
|---|---|---|
| 1969 | ARPANET criada pelo DARPA com NCP como protocolo | História do DARPA |
| 1974 | Cerf e Kahn publicam o paper fundador do TCP/IP | IEEE Transactions on Communications |
| 1978 | TCP e IP separados em protocolos distintos (TCP v4) | IEN 28 |
| 1981 | RFC 791 formaliza o IPv4 | RFC 791 (setembro 1981) |
| 1996 | RFC 1918 reserva faixas de IP privado (10/8, 172.16/12, 192.168/16) | RFC 1918 |
| 1998 | RFC 2460 especifica o IPv6 (atualizado pelo RFC 8200 em 2017) | RFC 8200 (julho 2017) |
| 2011 | IANA esgota os últimos blocos /8 de IPv4 | IANA Press Release fev/2011 |
| 2025 | Brasil ultrapassa 50% de adocao IPv6 em tráfego total | NIC.br / ipv6.br |
Modelo TCP/IP: as quatro camadas e o papel do IP
O modelo TCP/IP tem quatro camadas. O IP vive na camada de internet, entre a camada de acesso a rede (Ethernet, Wi-Fi) e a camada de transporte (TCP, UDP). Quando um aplicativo envia dados, o TCP os divide em segmentos, o IP os encapsula em datagramas com cabecalhos de roteamento, e a camada de enlace os converte em quadros transmissiveis pelo meio físico.
Esse modelo de encapsulamento permite que o IP funcione sobre qualquer tecnologia de enlace: Ethernet, Wi-Fi 802.11, fibra optica, redes celulares 4G/5G. O IP não sabe como o bit vai trafegar no fio. Ele apenas instrui: "este pacote vai do endereço X ao endereço Y, proximo salto e o roteador Z."
Como o IP funciona na prática
Quando você digita "google.com" no navegador, o primeiro passo e a resolucao DNS: o sistema converte o nome em um endereço IP (por exemplo, 142.250.219.46). So depois disso o IP entra em cena.
O ciclo de vida de um pacote IP
- O sistema operacional cria um datagrama IP com o endereço de origem (o IP público da sua conexão ou o IP privado local), o endereço de destino, o TTL inicial (tipicamente 64 em Linux, 128 em Windows, 255 em equipamentos Cisco) e encapsula o payload TCP ou UDP no campo de dados.
- O pacote vai primeiro para o gateway padrão (seu roteador domestico). Esse roteador consulta sua tabela de roteamento e decide o proximo salto. O roteador domestico também executa NAT se você tiver CGNAT ou IP privado.
- Cada roteador no caminho decrementa o TTL em 1, consulta a tabela de roteamento BGP e repassa ao proximo. Se o TTL chegar a 0 antes de atingir o destino, o roteador descarta o pacote e envia um ICMP Time Exceeded de volta ao remetente.
- O pacote chega ao servidor de destino, que processa o cabecalho IP, extrai o payload e passa para a camada de transporte (TCP ou UDP).
- A resposta percorre o caminho inverso até chegar ao dispositivo de origem, completando o ciclo.
NAT e o papel do roteador domestico
Na sua rede local, os dispositivos recebem endereços IP privados via DHCP, nas faixas definidas pela RFC 1918 (IETF): 10.0.0.0/8, 172.16.0.0/12 e 192.168.0.0/16. Esses endereços não são roteados na internet pública. O roteador domestico faz NAT (Network Address Translation): substitui o IP privado e a porta de origem pelo IP público e uma porta mapeada, mantendo uma tabela de tradução para saber a qual dispositivo local cada resposta pertence.
O IP público e o que servidores externos enxergam. E o que aparece nesta pagina ao verificar "meu IP". Seu notebook pode ter 192.168.1.5 na rede local, mas o servidor do Google ve a conexão vindo do IP público do seu roteador.
Estrutura do IPv4: cabecalho, campos e notacao CIDR
Um endereço IPv4 tem 32 bits divididos em 4 octetos de 8 bits, escritos em decimal separados por ponto. Cada octeto aceita valores de 0 a 255.
8 bits
8 bits
8 bits
8 bits
192.168.1.5 · 32 bits totais · cerca de 4,3 bilhoes de combinacoes possíveis no IPv4
O cabecalho IPv4 tem 20 bytes de tamanho fixo mais um campo de Options opcional (até 40 bytes). Entender os campos principais ajuda a interpretar capturas de tráfego no Wireshark e configurar firewalls corretamente.
| Campo | Tamanho | Função | Valor típico |
|---|---|---|---|
| Version | 4 bits | Versão do IP (4 para IPv4) | 4 |
| IHL | 4 bits | Tamanho do cabecalho em palavras de 32 bits | 5 (sem options = 20 bytes) |
| DSCP/ECN | 8 bits | Qualidade de serviço (QoS) e notificação de congestionamento | 0 (padrão) |
| TTL | 8 bits | Maximo de saltos. Decrementa a cada roteador. Zero = descarte | 64 (Linux), 128 (Windows) |
| Protocol | 8 bits | Tipo do payload encapsulado | 6 = TCP, 17 = UDP, 1 = ICMP, 89 = OSPF |
| Header Checksum | 16 bits | Verificação de integridade do cabecalho (só o cabecalho, não os dados) | Recalculado a cada salto |
| Source Address | 32 bits | Endereço IP de origem do pacote | Ex: 192.168.1.5 |
| Destination Address | 32 bits | Endereço IP de destino do pacote | Ex: 142.250.219.46 |
| Fragment Offset + Flags | 16 bits | Controle de fragmentação de pacotes grandes (MTU) | DF flag = não fragmentar |
Notacao CIDR e mascara de sub-rede
Endereços IP não existem isolados. Eles pertencem a blocos definidos pela notacao CIDR (Classless Inter-Domain Routing, RFC 4632). A notacao 192.168.1.0/24 significa que os primeiros 24 bits são o prefixo de rede e os últimos 8 bits identificam hosts nessa rede, permitindo 254 hosts utilizaveis. Um /16 tem 65.534 hosts; um /8 tem 16.777.214.
Roteadores usam prefixos CIDR nas tabelas de roteamento. O mecanismo de longest prefix match faz o roteador escolher a rota mais especifica: se a tabela tem 0.0.0.0/0 (rota padrão) e 142.250.0.0/16 (rota para Google), um pacote para 142.250.219.46 usa a rota /16, mais especifica que a /0.
| Prefixo | Mascara | Hosts utilizaveis | Uso típico |
|---|---|---|---|
| /8 | 255.0.0.0 | 16.777.214 | Blocos grandes (ex: 10.0.0.0/8 RFC 1918) |
| /16 | 255.255.0.0 | 65.534 | Redes corporativas grandes |
| /24 | 255.255.255.0 | 254 | Redes locais domesticas e pequenas empresas |
| /28 | 255.255.255.240 | 14 | VLANs pequenas, segmentos de gerenciamento |
| /30 | 255.255.255.252 | 2 | Links ponto a ponto entre roteadores |
| /32 | 255.255.255.255 | 1 (host único) | Rota para host especifico, loopback |
Tipos de endereço IP: público, privado, dinâmico e estático
Nem todos os endereços IP são iguais. A categoria de um endereço determina onde ele e válido, se e roteado na internet e com que frequência muda.
Público versus privado
IPs públicos são endereços únicos globalmente roteaveis, atribuidos por registros regionais (LACNIC, ARIN, RIPE NCC, APNIC, AFRINIC) a provedores e organizações. IPs privados são as tres faixas da RFC 1918 usadas em redes internas. Qualquer organização pode usar essas faixas internamente sem registrar com nenhum orgao, mas elas não são roteadas na internet pública.
Dinâmico versus estático
Conexões residenciais brasileiras tipicamente usam IP dinâmico: o provedor atribui um novo IP público cada vez que o modem/roteador reinicia ou quando o contrato DHCP expira. IP estático e um endereço fixo, permanente, que não muda entre reconexoes. Provedores brasileiros oferecem IP estático como serviço adicional pago, geralmente entre R$ 15 e R$ 40 mensais, voltado para servidores domesticos, cameras de seguranca acessadas remotamente e conexões VPN corporativas.
| Tipo | Faixa / Caracteristica | Roteado na internet | Uso típico | Custo |
|---|---|---|---|---|
| Privado (RFC 1918) | 10.0.0.0/8, 172.16.0.0/12, 192.168.0.0/16 | Não | Rede local (LAN) | Gratis (autogerenciado) |
| CGNAT (RFC 6598) | 100.64.0.0/10 | Não (uso interno de ISP) | Enlace provedor-assinante | Transparente ao usuário |
| Público dinâmico | Atribuido pelo provedor via DHCP | Sim | Conexões residenciais padrão | Incluso no plano |
| Público estático | Fixo, atribuido permanentemente | Sim | Servidores, VPN, cameras | Adicional (~R$ 15-40/mes) |
| Loopback | 127.0.0.1 (IPv4), ::1 (IPv6) | Não (só local) | Testes locais, localhost | Reservado pelo SO |
| Link-local APIPA | 169.254.0.0/16 | Não | Autoconfigurado quando DHCP falha | Automático (sinal de problema) |
| Multicast | 224.0.0.0/4 | Limitado | Streaming multicast, OSPF, IGMP | Reservado pelo IANA |
IP no Brasil: LACNIC, provedores e regulamentação
O Brasil tem uma infraestrutura de internet com caracteristicas próprias que afetam diretamente como o IP funciona para usuários residenciais e corporativos.
LACNIC e o NIC.br: quem aloca endereços no Brasil
O LACNIC (Latin American and Caribbean Internet Addresses Registry) e o registro regional responsável pela alocação de blocos IPv4, IPv6 e ASNs (Autonomous System Numbers) na América Latina e Caribe. Sediado em Montevideu, o LACNIC aloca blocos para provedores e organizações brasileiras, que por sua vez sub-alocam para seus clientes corporativos.
O NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenacao do Ponto BR), vinculado ao CGI.br, opera como o registro nacional do .br, gerencia o WHOIS para recursos brasileiros e administra o IX.br, a maior rede de pontos de troca de tráfego da América Latina. O IX.br SP (São Paulo) atingiu pico acima de 30 Tbps em 2025, com tráfego total agregado em 38 locais ultrapassando 40 Tbps, segundo dados públicos do NIC.br.
Prefixos IPv4 e IPv6 alocados ao Brasil
O LACNIC aloca blocos para o Brasil dentro de vários /8s. Os principais prefixos IPv4 com presenca significativa de endereços brasileiros incluem 177.0.0.0/8, 187.0.0.0/8, 189.0.0.0/8, 191.0.0.0/8 e 200.0.0.0/8. Para IPv6, o Brasil tem endereçamento dentro do bloco 2804::/12 alocado pelo LACNIC para a América Latina.
Os principais ASNs de provedores brasileiros
| Provedor | ASN | Tecnologia principal | IPv6 ativo |
|---|---|---|---|
| Claro/NET | AS28573 | HFC, fibra GPON, 4G/5G | Sim (parcial) |
| Vivo/Telefonica | AS26599 | Fibra GPON, 4G/5G | Sim (parcial) |
| TIM | AS26615 | 4G/5G, FTTH em expansao | Sim (em 5G) |
| Oi | AS7738 | Fibra, xDSL (em reducao) | Parcial |
| Algar Telecom | AS16735 | Fibra regional (Triangulo Mineiro, GO) | Em implantação |
| NIC.br (IX.br) | AS17008 | Pontos de peering IX.br | Sim (nativo) |
Marco Civil e LGPD: o IP como dado juridico
No Brasil, o endereço IP tem status legal claro. A Lei 12.965/2014 (Marco Civil da Internet, Planalto) classifica o log de conexão (que inclui IP de origem, porta e timestamp) como dado protegido. O artigo 13 obriga provedores de conexão a armazenar esses registros por um ano e só fornece-los mediante ordem judicial especifica.
A Lei 13.709/2018 (LGPD, Planalto) classifica o endereço IP como dado pessoal, pois permite a identificação indireta de uma pessoa quando combinado com os logs do provedor. Sites que coletam e armazenam IPs de usuários precisam tratar esse dado com as obrigacoes da LGPD, incluindo base legal, finalidade declarada e retencao limitada.
Adocao de IPv6 no Brasil em 2025
O Brasil atingiu um marco histórico em 2025: mais de 50% do tráfego de internet já transita via IPv6, segundo dados do NIC.br (ipv6.br). O pais figura entre os top-10 mundiais em adocao de IPv6 no ranking do Google, liderando na América Latina junto com Mexico e Uruguai. Esse crescimento foi impulsionado pelos provedores de fibra (Claro e Vivo lideram com mais de 40% de clientes IPv6 ativos) e pelas redes 5G, onde o IPv6 e praticamente nativo.
IPv6
- Tráfego IPv6 nativo: ~50%
- IPv4 público dedicado: ~22%
- IPv4 via CGNAT: ~28%
Estimativa do tráfego brasileiro por tipo de endereçamento (NIC.br / ipv6.br, 2025). Valores aproximados para conexões fixas residenciais.
Conceitos errados frequentes sobre IP
Tres mal-entendidos aparecem com frequência quando o assunto e endereçamento IP. Vale desmonta-los com precisao.
IP revela localizacao precisa?
O endereço IP indica o ponto de saida do provedor, que pode ser um data center em outra cidade. MaxMind, o maior fornecedor de bancos de dados de geolocalizacao IP, documenta uma margem de erro mediana de 25 km para o Brasil em endereços residenciais, podendo chegar a centenas de quilometros em areas rurais ou em usuários CGNAT onde o ponto de saida e centralizado numa capital. Localizacao precisa exige GPS ou triangulacao de torre celular, não endereçamento IP.
Mudar o IP protege privacidade completamente?
VPNs e proxies trocam o IP visivel por outro, mas não eliminam outros vetores de identificação: cookies de sessão, browser fingerprint (resolucao de tela, fontes instaladas, user agent, timezone), vazamento via WebRTC que expoe o IP real mesmo com VPN ativa, e comportamento de navegacao que sistemas de analytics cruzam para re-identificação. O IP e uma das dezenas de variáveis que compoem a identidade digital de uma sessão.
IP público e o IP do dispositivo?
O IP que aparece ao acessar esta pagina e o IP do roteador, o ponto de saida atribuido pelo provedor. Seu notebook, telefone e smart TV tem cada um seu próprio IP privado na rede local (192.168.x.x ou 10.x.x.x), invisiveis para servidores externos. Se você tem tres dispositivos em casa, todos eles aparecem na internet com o mesmo IP público do roteador.
Isso complica investigacoes judiciais: o IP público identifica o contrato do provedor, não o dispositivo nem o usuário especifico. Para determinar qual dispositivo fez uma conexão especifica, e necessario cruzar os logs do provedor (IP + porta + timestamp) com os logs do roteador (DHCP local), algo que requer ordem judicial e cooperacao do provedor.
| Tipo de IP | Quem ve | O que identifica | Precisao de localizacao |
|---|---|---|---|
| IP público (sem CGNAT) | Todos os servidores externos | Contrato do provedor (pode ser uma casa) | Cidade, margem ~25 km |
| IP público (com CGNAT) | Todos os servidores externos | Pool de 10-100 usuários do provedor | Estado/região, precisao baixa |
| IP privado (192.168.x.x) | So dispositivos na mesma rede local | Dispositivo especifico dentro da LAN | Sem informação geografica |
| IPv6 nativo | Todos os servidores externos | Dispositivo especifico (sem NAT) | Cidade/bairro (mais preciso) |
Perguntas frequentes sobre o que e IP
O que e IP e para que serve?
IP (Internet Protocol) e o protocolo que define como dispositivos na internet se identificam e trocam dados. Cada dispositivo recebe um número único chamado endereço IP. O protocolo empacota dados em datagramas com cabecalhos de roteamento e define como esses pacotes percorrem roteadores até o destino. Sem IP, não haveria como dois computadores em redes diferentes se comunicar. A versão mais usada e o IPv4 (RFC 791, 1981), mas o IPv6 (RFC 8200, 2017) já responde por mais de 50% do tráfego brasileiro em 2025.
Qual a diferença entre IP público e IP privado?
IP público e atribuido pelo provedor e e visivel na internet, único globalmente em um dado momento. IP privado e usado dentro de redes locais, nas faixas definidas pela RFC 1918: 10.0.0.0/8, 172.16.0.0/12 e 192.168.0.0/16. Endereços privados não são roteados na internet pública. O roteador domestico faz NAT para converter o IP privado de cada dispositivo no IP público compartilhado ao sair para a internet.
Meu IP muda com o tempo?
Depende do tipo de contrato. Conexões residenciais brasileiras usam IP dinâmico: o provedor atribui um novo IP ao reiniciar o roteador ou quando o contrato DHCP expira. IP estático e um serviço adicional pago que mantém o mesmo endereço indefinidamente. Usuários em CGNAT tem uma camada extra: o IP que aparece na internet muda conforme o provedor redistribui os IPs públicos no seu pool, podendo mudar várias vezes ao dia.
Quantos endereços IPv4 existem?
O espaço IPv4 e de 2^32 = 4.294.967.296 endereços. Desse total, blocos significativos são reservados: 192.168.0.0/16 e 10.0.0.0/8 (redes privadas, RFC 1918), 127.0.0.0/8 (loopback), 169.254.0.0/16 (link-local APIPA), 224.0.0.0/4 (multicast) e 100.64.0.0/10 (CGNAT, RFC 6598). O espaço público utilizavel e de aproximadamente 3,7 bilhoes de endereços, todos já alocados pelos registros regionais desde 2011.
O IP revela minha localizacao exata?
Não. O IP indica a região do ponto de saida do provedor, que pode ser em outra cidade. Bancos de dados de geolocalizacao como MaxMind GeoIP2 tem margem de erro mediana de 25 km para o Brasil, podendo chegar a centenas de quilometros. Para usuários em CGNAT, o IP público e compartilhado por dezenas de clientes, tornando a localizacao via IP ainda menos precisa. Localizacao precisa exige GPS ou triangulacao de sinal, não endereçamento IP.
Como o IP e tratado pela LGPD no Brasil?
A LGPD (Lei 13.709/2018) classifica o endereço IP como dado pessoal, pois possibilita identificação indireta quando combinado com logs do provedor. Sites que coletam e armazenam IPs de usuários precisam de base legal declarada (consentimento, interesse legitimo ou obrigacao legal), finalidade especifica e retencao limitada ao necessario. O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) obriga provedores de conexão a guardar logs de IP por um ano e fornece-los apenas mediante ordem judicial.
O que e TTL no cabecalho IP?
TTL (Time to Live) e um campo de 8 bits no cabecalho IPv4 que limita quantos roteadores (saltos) um pacote pode atravessar antes de ser descartado. Cada roteador decrementa o TTL em 1. Quando o TTL chega a 0, o roteador descarta o pacote e envia um ICMP "Time Exceeded" ao remetente. O valor inicial típico e 64 (Linux/Android), 128 (Windows) ou 255 (equipamentos Cisco). O traceroute usa TTLs crescentes para mapear cada roteador na rota até o destino.
Como verificar meu endereço IP agora?
O endereço IP público da sua conexão aparece automaticamente na ferramenta Meu IP desta pagina, sem necessidade de cadastro. Ela mostra o IP público visto pelos servidores externos, o provedor associado (via lookup de ASN) e se você esta em CGNAT. Para ver o IP privado do dispositivo, use "ipconfig" no Windows ou "ip addr" no Linux/Android via terminal.
Qual a diferença entre IP e DNS?
IP e o endereço numérico do dispositivo (ex: 142.250.219.46). DNS (Domain Name System) e o sistema que traduz nomes legíveis (google.com) para endereços IP. O IP e o protocolo de transporte fundamental; o DNS e uma aplicação que torna o IP utilizavel sem memorizar números. Quando você digita google.com no navegador, o DNS resolve o nome para um IP, e só então o IP entra em cena para rotear os pacotes.
O que acontece se dois dispositivos tiverem o mesmo IP na mesma rede?
Ocorre um conflito de IP (IP conflict). Os dois dispositivos ficam incapazes de se comunicar corretamente na rede: pacotes destinados ao IP conflitante chegam ao dispositivo errado ou são descartados. Em redes com DHCP, o servidor previne isso atribuindo IPs únicos automaticamente. Conflitos ocorrem quando alguem configura IP estático dentro do range do DHCP sem reservar o endereço. O Windows mostra um alerta de "Conflito de endereço IP na rede" quando detecta o problema.
O que e o endereço 0.0.0.0?
O endereço 0.0.0.0 tem significados diferentes conforme o contexto. Como endereço de origem em pacotes, significa "nenhum endereço atribuido ainda" (usado durante o DHCP discovery). Como rota de destino (0.0.0.0/0), e a rota padrão que cobre qualquer IP não especificado explicitamente na tabela de roteamento. Em configurações de servidor, "escutar em 0.0.0.0" significa aceitar conexões em todas as interfaces de rede simultaneamente.
Como funciona o roteamento BGP na internet?
BGP (Border Gateway Protocol) e o protocolo usado entre roteadores de grandes provedores e empresas para anunciar quais blocos de IP cada um pode alcancar. Um provedor brasileiro como a Vivo (AS26599) anuncia via BGP para o IX.br e para seus peers internacionais os blocos de IP que são seus clientes. Quando um pacote precisa chegar a um IP brasileiro, roteadores no mundo inteiro consultam suas tabelas BGP para encontrar o caminho mais curto até o AS da Vivo.
O Internet Protocol e a fundacao invisivel de toda comunicação digital. Entender o que e IP ajuda a diagnosticar problemas de conexão, interpretar logs de acesso, configurar firewalls, entender por que jogos travam em CGNAT e acompanhar a transicao para o IPv6 que esta em curso no Brasil. O IP público da sua conexão pode ser verificado instantaneamente na ferramenta Meu IP desta pagina, que também detecta automaticamente se você esta em CGNAT.
Para aprofundar, os artigos sobre o que e IPv6, o que e CGNAT e o que e DNS cobrem os protocolos que trabalham junto com o IP para fazer a internet funcionar. Os RFC 791 (IPv4, setembro 1981) e RFC 8200 (IPv6, julho 2017) estao disponíveis gratuitamente no IETF para quem quiser ler a especificacao original.
Referências bibliograficas
- Tanenbaum, A. S. Redes de Computadores. 4a edição. Campus, 2004. (Capitulo 5 - Camada de Rede)
- Peterson, L. L.; Davie, B. S. Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas. 5a edição. Elsevier, 2013. (Capitulos 3 e 4)
- Fernandez, M. P. Rede de Computadores. UAB/UECE, 2019. (Capitulo 3 - Protocolos Internet)
- Postel, J. RFC 791 - Internet Protocol. IETF, setembro 1981. Disponível em: https://www.rfc-editor.org/rfc/rfc791
- Deering, S.; Hinden, R. RFC 8200 - Internet Protocol, Version 6 (IPv6) Specification. IETF, julho 2017.
- Rekhter, Y. et al. RFC 1918 - Address Allocation for Private Internets. IETF, fevereiro 1996.
Veja seu IP público
Leituras Relacionadas
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