O que e ASN
O que e ASN: Autonomous System Number, como funciona o BGP, diferenca entre ASN 16 e 32 bits, registros LACNIC/RIPE/ARIN e como identificar o ASN do seu provedor.
ASN (Autonomous System Number) é o número que identifica cada Sistema Autônomo na internet, permitindo que provedores e grandes redes troquem rotas entre si via protocolo BGP. Por trás de qualquer traceroute que você executa existe uma sequência de ASNs identificando cada rede que o pacote atravessa, desde o seu ISP até o servidor de destino. A Vivo opera como AS26599, a Claro como AS28573, a TIM como AS26615. Quando você assiste a um vídeo no YouTube de uma conexão da Vivo, o pacote percorre o AS26599 antes de chegar ao AS15169 (Google). Veja na página Meu IP qual é o ASN atribuído à sua conexão agora.
Neste artigo
- Definição formal: RFC 1930 e RFC 4271
- ASNs de 16 bits e de 32 bits
- Como o BGP usa o ASN
- O campo AS_PATH e como ele funciona
- Tipos de relacionamento entre sistemas autônomos
- IXPs e peering: troca direta de tráfego
- Como obter um ASN
- Segurança de BGP e RPKI
- ASN no contexto brasileiro
- Perguntas frequentes
Definição formal: RFC 1930 e RFC 4271
A RFC 1930 (J. Hawkinson e T. Bates, março de 1996, "Guidelines for creation, selection, and registration of an Autonomous System") estabeleceu os critérios para que uma organização justifique a necessidade de um ASN. Três condições são aceitas: a organização tem múltiplas conexões a ISPs diferentes (multi-homing), tem uma política de roteamento própria e distinta dos provedores que usa, ou opera uma escala de rede que demanda gerenciamento BGP independente.
Um Sistema Autônomo é um conjunto de prefixos IP gerenciado por uma única entidade administrativa com política de roteamento coerente para o mundo externo. A palavra "autônomo" não significa que a rede opera isolada: significa que ela toma suas próprias decisões de roteamento, independentemente das políticas dos provedores de trânsito que usa.
O protocolo BGP-4 (Border Gateway Protocol version 4), definido pela RFC 4271 (Y. Rekhter et al., 2006), usa o ASN em dois campos críticos das mensagens UPDATE que os roteadores trocam: o campo AS_PATH, que lista a sequência de ASNs pelos quais o anúncio de rota passou (e serve para detectar loops), e o campo NEXT_HOP, que identifica o próximo salto para alcançar o prefixo anunciado.
ASNs de 16 bits e de 32 bits
Os ASNs originais eram de 16 bits, cobrindo valores de 1 a 65535. O valor 0 e o 65535 são reservados. Com a expansão da internet, esse espaço se aproximou do esgotamento. A RFC 6793 (2012, que atualizou a RFC 4893 de 2007) expandiu o espaço para 32 bits, cobrindo valores até 4.294.967.295.
| Faixa | Tipo | Uso |
|---|---|---|
| 1 a 23455 | 16 bits, público | ASNs históricos atribuídos antes de 2009 |
| 23456 | Reservado | AS_TRANS: usado em migração de 16 para 32 bits |
| 64512 a 65534 | 16 bits, privado | BGP interno entre filiais, sem registro no RIR |
| 65535 | Reservado | Uso especial (RFC 7300) |
| 65536 a 4199999999 | 32 bits, público | Novos ASNs alocados desde 2009 |
| 4200000000 a 4294967294 | 32 bits, privado | BGP privado em redes grandes sem registro |
A notação de ASNs de 32 bits tem dois formatos. A notação "asplain" usa o número inteiro diretamente: AS131072. A notação "asdot" divide em dois grupos de 16 bits separados por ponto: AS2.0 (porque 131072 = 2 * 65536 + 0). O LACNIC aloca por padrão ASNs de 32 bits desde janeiro de 2010. Organizações podem solicitar ASN de 16 bits apenas com justificativa técnica específica.
Como o BGP usa o ASN
O BGP é o protocolo de roteamento inter-domínio da internet. Funciona sobre TCP na porta 179 e usa quatro tipos de mensagem: OPEN (estabelece a sessão e apresenta o ASN), UPDATE (anuncia ou retira prefixos), NOTIFICATION (sinaliza erros) e KEEPALIVE (mantém a sessão ativa). Toda sessão BGP começa com os dois lados trocando seus ASNs no OPEN. Essa identificação é a base de toda a troca de rotas que segue.
Uma sessão BGP entre dois ASNs distintos é chamada de eBGP (external BGP). Dentro do mesmo AS, roteadores que precisam propagar as rotas aprendidas externamente usam iBGP (internal BGP). A diferença técnica principal: o AS_PATH não é modificado no iBGP (a rota já está dentro do mesmo AS), mas é acrescido de um novo ASN no eBGP a cada salto entre sistemas autônomos.
O campo AS_PATH e como ele funciona
O AS_PATH é o campo mais importante dos anúncios BGP do ponto de vista de roteamento. Ele lista todos os ASNs pelos quais o anúncio passou, do mais recente para o mais antigo. Quando um roteador recebe um UPDATE com o próprio ASN já no AS_PATH, ele descarta o anúncio: isso é a detecção de loop do BGP.
Um AS_PATH típico de um usuário Vivo no Brasil acessando um servidor AWS nos EUA pode ser: AS26599 (Vivo) → AS1299 (Telia, trânsito global) → AS16509 (Amazon AWS). O roteador do usuário no AS26599 aprende que para chegar ao prefixo do servidor, deve enviar pacotes para o roteador da Telia (AS1299), que então encaminha para a Amazon (AS16509).
| Provedor | ASN principal | Tipo |
|---|---|---|
| Vivo (Telefônica) | AS26599 | Tier 1 nacional, multi-homed global |
| Claro (NET/Embratel) | AS28573 | Tier 1 nacional |
| TIM | AS26615 | Foco em rede móvel, acesso fixo parcial |
| Oi | AS7738 | Operadora com backbone nacional |
| Algar Telecom | AS16735 | Regional (MG, SP, GO, MS) |
| RNP | AS1916 | Rede acadêmica nacional |
| IX.br (PTT) | AS26162 | Internet Exchange Point |
O comprimento do AS_PATH é um dos fatores que o BGP usa para decidir qual é o melhor caminho quando existem múltiplas rotas para o mesmo destino. Um AS_PATH mais curto geralmente indica menos saltos entre redes. Mas não é o único fator: politicas de roteamento locais, MEDs (Multi-Exit Discriminators) e preferências manuais podem sobrescrever a escolha pelo AS_PATH mais curto.
Tipos de relacionamento entre sistemas autônomos
A internet é um tecido de acordos comerciais e técnicos entre sistemas autônomos. Existem três tipos principais de relacionamento:
- Trânsito. O cliente paga ao provedor (trânsito upstream) para que seus prefixos sejam anunciados para a internet inteira. O provedor anuncia todos os prefixos do cliente e fornece rotas completas (full table) para o cliente. É a relação padrão de qualquer ISP com o seu upstream global.
- Peering. Dois ASNs trocam rotas diretamente, sem custo de trânsito, mas apenas para os prefixos de seus próprios clientes. O AS A anuncia ao AS B apenas seus próprios prefixos e os de seus clientes; o B faz o mesmo. Tráfego que precisaria passar por um terceiro AS vai por trânsito, não peering.
- Parceiro / reseller. Variações comerciais do trânsito, como acordos regionais e resellers de conectividade, com políticas de roteamento específicas negociadas bilateralmente.
A diferença entre peering e trânsito tem implicação direta na latência e no custo. Dois ISPs brasileiros que fazem peering no IX.br em São Paulo trocam tráfego diretamente, sem passar por roteadores de backbone nos EUA ou Europa. Isso reduz latência e elimina o custo de trânsito para esse tráfego específico.
IXPs e peering: troca direta de tráfego
IXP (Internet Exchange Point) é uma infraestrutura física onde múltiplos ASNs se conectam para fazer peering de forma eficiente. Em vez de conectar bilateralmente a cada parceiro via circuito dedicado, todos se conectam à mesma fabric de switches do IXP e trocam rotas via BGP de route server.
O IX.br, operado pelo NIC.br, é o maior IXP do Brasil e um dos maiores do mundo em volume de tráfego. Presente em mais de 35 cidades brasileiras, o IX.br em São Paulo (PTT-SP) opera com picos de tráfego na casa de vários terabits por segundo. No início de 2026, centenas de ASNs participam do IX.br, incluindo grandes provedores, CDNs e empresas de conteúdo.
Para uma empresa ou provedor brasileiro, participar do IX.br significa que o tráfego trocado com outros participantes não precisa sair do Brasil. Um vídeo do Globoplay assistido por um assinante Vivo não precisa cruzar links internacionais se ambos participam do IX.br: o tráfego vai diretamente do AS da Globo para o AS da Vivo pelo ponto de troca em São Paulo ou no Rio de Janeiro.
Como obter um ASN
No Brasil, a solicitação de ASN é feita diretamente ao LACNIC em lacnic.net. O processo exige que a organização tenha ou justifique a necessidade de múltiplas conexões BGP com ASNs distintos, ou política de roteamento própria que não seja delegada integralmente a um único provedor.
O requerente precisa documentar a política de roteamento: com quais ASNs vai interconectar, quais prefixos serão anunciados, qual é a justificativa de multi-homing. O LACNIC pode revogar um ASN que permaneça inativo por mais de seis meses sem uso BGP efetivo.
Desde janeiro de 2010, o LACNIC aloca por padrão ASNs de 32 bits. ASNs de 16 bits só são concedidos mediante justificativa técnica específica, geralmente ligada a equipamentos legados que não suportam 32 bits.
Para startups e empresas de tecnologia brasileiras que montam infraestrutura própria (CDN, cloud privada, hosting), obter um ASN e um bloco /22 público do LACNIC é o passo que viabiliza multi-homing real e reduz dependência de um único provedor de trânsito. A taxa de manutenção anual junto ao LACNIC é acessível para PMEs.
Segurança de BGP: RPKI e sequestros de rota
O BGP foi projetado numa época em que todos os participantes da internet eram considerados confiáveis. Não há autenticação criptográfica nativa nos anúncios de rota: qualquer AS pode anunciar qualquer prefixo, e os outros AS só percebem o problema quando o tráfego para de fluir corretamente ou quando o erro já causou dano.
Sequestros de rota BGP acontecem quando um AS anuncia prefixos que não pertencem a ele, intencionalmente ou por erro de configuração. Em abril de 2010, um AS chinês anunciou erroneamente dezenas de milhares de prefixos da internet, redirecionando tráfego de EUA, Europa e Ásia pelo backbone da China por cerca de 18 minutos. Em 2018, o AS de uma pequena empresa nigeriana anunciou prefixos do Google, desviando tráfego de usuários que tentavam acessar o Gmail e o Google Search.
A solução em implantação global é o RPKI (Resource Public Key Infrastructure). O RPKI permite que o titular de um bloco de endereços IP assine criptograficamente um ROA (Route Origin Authorization), declarando qual ASN tem autorização para anunciar aquele prefixo. Roteadores BGP com validação RPKI ativa rejeitam automaticamente anúncios inválidos.
O LACNIC opera o repositório RPKI para a região América Latina e Caribe. Organizações brasileiras que registram prefixos no LACNIC podem criar ROAs via o portal do LACNIC. A adoção de RPKI entre ISPs brasileiros cresceu consistentemente nos últimos anos, mas ainda não é universal, especialmente entre provedores regionais de menor porte.
No IX.br, a comunidade técnica brasileira promove a adoção de RPKI como requisito de boa prática de peering. ISPs que não validam RPKI ficam expostos a aceitar anúncios inválidos que poderiam desviar o tráfego dos seus clientes. A ferramenta BGP.he.net permite verificar se qualquer prefixo tem ROA válido publicado no RPKI global.
ASN no contexto brasileiro
O LACNIC gerencia mais de 8.000 ASNs alocados para organizações brasileiras. O Brasil é o país com mais ASNs na América Latina, reflexo da maturidade do mercado de telecomunicações e da quantidade de ISPs regionais que obtiveram autonomia de roteamento.
O NIC.br opera o IX.br (antigo PTT.br), presente em mais de 35 cidades brasileiras. O IX.br São Paulo é o maior ponto de troca de tráfego da América Latina em capacidade instalada. ISPs conectados ao IX.br trocam rotas diretamente com centenas de parceiros sem pagar por trânsito internacional, reduzindo latência e custo operacional.
A Anatel, pelo Regulamento Geral de Qualidade do Serviço de Acesso à Internet Banda Larga (RGQ-BL), exige que ISPs mantenham registro atualizado de seus ASNs e prefixos junto ao LACNIC. Esse registro é usado em investigações de crimes digitais, abuso de rede e rastreamento de botnets nacionais. O CAIS/RNP (Centro de Atendimento a Incidentes de Segurança da RNP) cruza dados de ASN com registros de tráfego anômalo para identificar origens de DDoS.
O traceroute revela os ASNs no caminho entre a sua conexão e qualquer destino. Use o Traceroute deste site para ver quais provedores carregam o seu tráfego. Em conexões residenciais brasileiras, é comum ver o AS do provedor local, seguido do AS de um agregador regional, antes de chegar ao backbone internacional ou ao IX.br.
Perguntas frequentes sobre ASN
O que é ASN?
ASN (Autonomous System Number) é um número que identifica exclusivamente um Sistema Autônomo na internet. Um Sistema Autônomo é um conjunto de redes IP gerenciado por uma única organização com política de roteamento própria, conforme definido na RFC 1930 (1996). O protocolo BGP-4 usa o ASN para identificar a origem e o caminho de cada anúncio de rota entre provedores.
Qual a diferença entre ASN de 16 bits e de 32 bits?
ASNs de 16 bits (1 a 65535) foram o padrão original, mas o espaço se aproximou do esgotamento. A RFC 6793 (2012) consolidou a expansão para 32 bits (até 4.294.967.295), escritos no formato "asplain" (número inteiro, ex: AS131072) ou "asdot" (dois grupos de 16 bits, ex: AS2.0). O LACNIC aloca ASNs de 32 bits por padrão desde 2010.
Como descubro o ASN da minha conexão?
A página Meu IP deste site exibe o ASN do seu provedor automaticamente ao carregar. Você também pode usar o Traceroute para ver os ASNs de cada salto no caminho até qualquer destino, ou consultar o WHOIS do LACNIC para qualquer IP brasileiro em lacnic.net/cgi-bin/lacnic/whois.
Todo mundo tem um ASN?
ASNs são necessários apenas para organizações que anunciam prefixos próprios na internet via BGP: provedores de acesso (ISPs), grandes empresas, universidades, data centers. Usuários residenciais não têm ASN próprio; eles usam o ASN do provedor. Um cliente da Vivo aparece na internet com o ASN26599 da Vivo, não com um ASN próprio.
ASN privado existe?
Os ASNs de 64512 a 65534 (16 bits) e de 4200000000 a 4294967294 (32 bits) são reservados para uso privado, como BGP interno entre filiais de uma empresa sem necessidade de registro no RIR. Eles nunca devem aparecer em anúncios BGP na internet pública; roteadores de borda de ISPs filtram esses ASNs antes de repassar anúncios para o exterior.
O que é eBGP e iBGP?
eBGP (external BGP) é a sessão BGP entre dois ASNs distintos. É o BGP da internet, onde provedores trocam rotas uns com os outros. iBGP (internal BGP) é a sessão dentro do mesmo AS para propagar internamente as rotas aprendidas via eBGP. Em um ISP com vários roteadores de borda, todos precisam de sessão iBGP para conhecer as rotas completas aprendidas pelo BGP externo.
O ASN muda quando troco de provedor de internet?
Para usuários residenciais e a maioria das empresas, sim: ao trocar de provedor, o IP público e o ASN mudam para os do novo provedor. Organizações com ASN próprio (ISPs, grandes empresas, data centers) mantêm o mesmo ASN independentemente de quais provedores de trânsito contratam. Essa é exatamente uma das vantagens do ASN próprio: a identidade de roteamento não depende do provedor.
O que é o IX.br e como ele se relaciona com ASNs brasileiros?
O IX.br (Internet Exchange do Brasil), operado pelo NIC.br, é a infraestrutura onde ASNs brasileiros trocam tráfego diretamente via peering BGP, sem custo de trânsito internacional. Presente em mais de 35 cidades, o IX.br São Paulo é um dos maiores do mundo em volume. Para um ISP brasileiro participante, tráfego com outros participantes do IX.br não precisa sair do Brasil, reduzindo latência e custo operacional.
Entender o que é ASN é o passo fundamental para compreender como o tráfego da internet é roteado entre provedores, como funcionam os acordos de peering que reduzem latência no Brasil via IX.br, e por que o AS_PATH no BGP é a proteção básica contra loops de roteamento. As referências primárias são a RFC 4271 (BGP-4), a RFC 1930 (critérios para ASN) e a RFC 6793 (ASNs de 32 bits). Use o Traceroute para visualizar os ASNs no caminho entre você e qualquer servidor.
Consulta WHOIS
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