IPv4 vs IPv6

IPv4 tem 4,3 bilhões de endereços (32 bits) e o IPv6 opera em escala massiva (128 bits). Compare formato, NAT, autoconfiguração, segurança e adoção global.

IPv4 e IPv6 são as duas versões do protocolo de endereçamento da internet. O IPv4, definido em 1981 pela RFC 791, usa endereços de 32 bits e oferece cerca de 4,3 bilhões de combinações. O IPv6, consolidado em 2017 pela RFC 8200, usa 128 bits e tem mais de 3,4 × 1038 endereços. O Brasil alcançou 50,4% de tráfego IPv6 em 2024 segundo dados do NIC.br, mas a maioria das redes ainda opera em dual stack, com os dois protocolos ativos simultaneamente. Verifique se sua conexão usa IPv6 na página Meu IP.

Neste artigo

  1. Por que o IPv6 existe
  2. Diagrama: cabeçalhos IPv4 e IPv6 lado a lado
  3. Comparativo completo IPv4 vs IPv6
  4. Formato dos endereços
  5. Esgotamento do IPv4 e o mercado secundário
  6. NAT, CGNAT e a relação com o IPv6
  7. Desempenho real: IPv6 é mais rápido?
  8. Segurança: IPsec, firewall e superfície de ataque
  9. Autoconfiguração: DHCP vs SLAAC
  10. Dual stack e mecanismos de transição
  11. Adoção no Brasil
  12. Perguntas frequentes

Por que o IPv6 existe

O IPv4 não surgiu com intenção de escalar para bilhões de dispositivos. Quando Jon Postel publicou a RFC 791 em setembro de 1981, a internet era uma rede experimental de algumas centenas de máquinas em universidades e órgãos militares americanos. O espaço de 4,3 bilhões de endereços parecia mais do que suficiente para qualquer cenário previsível.

Três décadas depois, smartphones, tablets, câmeras IP, sensores IoT, carros conectados e milhões de servidores de cloud consumiram praticamente todo o espaço disponível. O IANA esgotou o último bloco /8 disponível para os Registros Regionais de Internet em fevereiro de 2011. Os RIRs regionais foram esgotando seus pools nós anos seguintes.

O IPv6 foi a resposta projetada. O IETF começou o trabalho em 1994 e publicou a especificação inicial como RFC 2460 em 1998. Mais de duas décadas de refinamento levaram à versão atual, a RFC 8200 (2017), que tornou obsoleta a RFC 2460.

Fundamentos acadêmicos de IPv4 e IPv6

A comparação entre IPv4 e IPv6 atravessa os livros clássicos de redes. Tanenbaum documenta o protocolo IPv4 original com detalhes do cabecalho, enquanto Peterson & Davie cobrem a transicao para IPv6 na edição de 2013:

"A motivacao para uma nova versão do IP e simples: lidar com o esgotamento do espaço de endereços IP."

Larry L. Peterson, Bruce S. Davie - Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas, 5a edição, p. 198 (Elsevier, 2013)

A escala do IPv6 frente ao IPv4 e descrita numericamente por Fernandez:

"enquanto IPv4 suportava 4 bilhoes de nós, IPv6 pode enderecar 3,4 x 10^38 nós."

Marcial Porto Fernandez - Rede de Computadores. UAB/UECE, 2019, p. 130

A critica arquitetural ao NAT que impulsionou o IPv6 aparece em Peterson & Davie:

"Essa tecnologia e a tradução de endereços de rede (NAT), e seu uso difundido e uma razao principal para a implantação do IPv6 ainda continuar em seus primeiros estágios. A técnica de NAT e vista por alguns como 'arquitetonicamente impura'."

Larry L. Peterson, Bruce S. Davie - Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas, 5a edição, p. 205 (Elsevier, 2013)

O cabecalho fixo de 40 bytes do IPv6, uma das melhorias estruturais frente ao IPv4, e descrito por Fernandez:

"O campo de tamanho de cabecalho foi eliminado [no IPv6], pois tem tamanho fixo de 40 bytes."

Marcial Porto Fernandez - Rede de Computadores. UAB/UECE, 2019, p. 133

Diagrama: cabeçalhos IPv4 e IPv6 lado a lado

Os dois protocolos têm estruturas de cabeçalho muito diferentes. O IPv4 tem tamanho variável (mínimo 20, máximo 60 bytes) com checksum calculado em cada roteador. O IPv6 tem 40 bytes fixos sem checksum de cabeçalho, delegando verificação de integridade para as camadas superiores.

Cabeçalho IPv4 (mín. 20 bytes) Version 4 bits IHL 4 bits DSCP / ECN 8 bits Total Length 16 bits Identification 16 bits Flags 3 bits Fragment Offset 13 bits TTL 8 bits Protocol 8 bits Header Checksum 16 bits (em cada roteador) Source Address (32 bits) Destination Address (32 bits) Options + Padding (variável, até 40 bytes) calculado em cada hop Cabeçalho IPv6 (fixo: 40 bytes) Version 4 bits Traffic Class 8 bits Flow Label 20 bits Payload Length 16 bits Next Header 8 bits Hop Limit 8 bits = TTL Source Address (128 bits) 4× maior que IPv4 Destination Address (128 bits) 4× maior que IPv4 sem checksum no cabeçalho Diferenças estruturais principais IPv4: Identification + Flags + Fragment Offset (fragmentação por roteadores) IPv4: Header Checksum recalculado em cada roteador (sobrecarga de CPU) IPv6: Flow Label (QoS por fluxo sem inspecionar payload) IPv6: Next Header substitui Protocol + Options (extensivel sem overhead fixo) Comum: Version, TTL/Hop Limit, Protocol/Next Header, Source, Destination
Figura 1. Campos dos cabeçalhos IPv4 (esquerda) e IPv6 (direita). O IPv4 tem campos de fragmentação e checksum ausentes no IPv6. O IPv6 tem Flow Label e endereços 4 vezes maiores (128 bits vs 32 bits).

Comparativo completo IPv4 vs IPv6

Comparativo direto IPv4 vs IPv6
Critério IPv4 IPv6
Tamanho do endereço 32 bits 128 bits
Espaço de endereçamento ~4,3 bilhões ~3,4 × 1038
Notação Decimal pontuado (192.168.1.1) Hexadecimal com dois-pontos (2001:db8::1)
Tamanho do cabeçalho Variável: 20 a 60 bytes Fixo: 40 bytes + extension headers
Fragmentação Roteadores e host de origem Apenas o host de origem (via PMTUD)
Checksum no cabeçalho IP Sim (processado em cada roteador) Não (delegado para camadas superiores)
Broadcast Sim Não (substituído por multicast e anycast)
NAT Necessário (escassez de IPs públicos) Em geral desnecessário
Autoconfiguração DHCPv4 SLAAC (RFC 4862) e/ou DHCPv6
IPsec Opcional Mandatório na especificação (RFC 4301)
Sub-rede padrão de LAN /24 é o mais comum /64 como prática universal
Resolução de vizinhança ARP (RFC 826) NDP (RFC 4861)
Especificação vigente RFC 791 (1981) RFC 8200 (2017)

Formato dos endereços

IPv4

Um endereço IPv4 tem 32 bits escritos como quatro grupos decimais separados por ponto, cada grupo representando 8 bits (0 a 255). Exemplo: 192.168.1.1 (gateway residencial típico). O espaço é dividido em público (roteável na internet) e privado (RFC 1918, não roteável externamente).

192.168.1.1 = 32 bits totais · faixa de cada octeto: 0 a 255

IPv6

Um endereço IPv6 tem 128 bits escritos como oito grupos de quatro dígitos hexadecimais separados por dois-pontos. Exemplo completo: 2001:0db8:0000:0000:0000:0000:0000:0001. Duas regras de abreviação tornam a notação mais compacta:

2001:0db8:0000:0000:0000:0000:0000:0001 = 128 bits · abreviado: 2001:db8::1

  • Zeros à esquerda dentro de cada grupo podem ser omitidos: 0db8 vira db8.
  • Grupos consecutivos de zeros são substituídos por ::, mas apenas uma vez no endereço. Assim 2001:0db8:0000:0000:0000:0000:0000:0001 vira 2001:db8::1.
Endereços IPv6 especiais e seus equivalentes IPv4
Tipo Endereço IPv6 Equivalente IPv4
Loopback ::1 127.0.0.1
Não especificado :: 0.0.0.0
Link-local fe80::/10 169.254.0.0/16 (APIPA)
Multicast ff00::/8 224.0.0.0/4
Documentação 2001:db8::/32 192.0.2.0/24 (TEST-NET)
Global unicast (público) 2000::/3 Endereços públicos IPv4
ULA (privado IPv6) fc00::/7 (prefixo fd) RFC 1918 (10.x, 172.16.x, 192.168.x)

Esgotamento do IPv4 e o mercado secundário

O IANA distribuiu os últimos blocos /8 disponíveis para os RIRs em fevereiro de 2011. A partir daí, cada RIR regional foi gerenciando seu estoque até o esgotamento. O LACNIC, responsável pela América Latina incluindo o Brasil, esgotou o pool principal em junho de 2014 e desde então opera em modo restrito, alocando no máximo um /22 por organização por ciclo.

Esgotamento dos blocos IPv4 por RIR
RIR Região Data de esgotamento do pool principal Política atual
APNICÁsia-PacíficoAbril de 2011Fila de espera
RIPE NCCEuropa e Oriente MédioSetembro de 2012Último /24 por membro
LACNICAmérica LatinaJunho de 2014Máx. /22 por ciclo
ARINAmérica do NorteSetembro de 2015Fila de espera
AFRINICÁfricaJaneiro de 2020Restrições severas

O esgotamento criou um mercado secundário de endereços IPv4. Blocos /24, /22 e maiores são negociados entre organizações via brokers especializados. Blocos /24 chegaram a ser negociados por dezenas de milhares de dólares em 2023-2024. No Brasil, a fila de espera por novos blocos IPv4 do LACNIC chegou a mais de 1.000 organizações aguardando em 2024, com o primeiro da fila esperando mais de 700 dias.

NAT, CGNAT e a relação com o IPv6

NAT (Network Address Translation) foi a solução paliativa que estendeu a vida útil do IPv4 por mais de duas décadas. Um único IP público pode servir dezenas, centenas ou até milhares de dispositivos internos via tradução de portas (PAT). O CGNAT (Carrier-Grade NAT, RFC 6598) leva isso para o nível do provedor: múltiplos assinantes compartilham o mesmo IP público, com endereços da faixa 100.64.0.0/10 entre o equipamento do cliente e o roteador do provedor.

A maioria dos usuários residenciais brasileiros está em CGNAT hoje. O impacto prático é concreto: impossibilidade de hospedar serviços sem VPS externo, dificuldades com jogos online que exigem NAT aberto (PlayStation Network, Xbox Live, alguns títulos competitivos), e VPNs com restrição de porta UDP. Provedores como Vivo e Claro oferecem IP fixo público como adicional pago.

O IPv6 elimina tecnicamente a necessidade do NAT ao oferecer endereços públicos para cada dispositivo. Com IPv6 nativo, cada smartphone, notebook e smart TV da casa recebe seu próprio endereço público globalmente único, sem compartilhamento com outros assinantes. Isso simplifica rastreabilidade, elimina o problema de abertura de portas e reduz latência em aplicações peer-to-peer.

Desempenho real: IPv6 é mais rápido?

A resposta curta: depende do cenário. O IPv6 tem vantagens arquiteturais que podem resultar em ganho mensurável, mas a diferença prática varia conforme a rede e o provedor.

Fatores de desempenho: IPv4 vs IPv6
Fator IPv4 IPv6 Impacto prático
Processamento do cabeçalho Checksum recalculado em cada roteador Sem checksum de cabeçalho Leve ganho IPv6 em redes com muitos hops
NAT no caminho CGNAT adiciona latência de estado Sem NAT necessário Ganho IPv6 mensurável em redes móveis com CGNAT duplo
Fragmentação Roteadores podem fragmentar Apenas host de origem via PMTUD IPv6 evita fragmentação inesperada em caminhos MTU variáveis
Rota BGP AS_PATH pode ser mais curto para destinos legados Rotas IPv6 por vezes mais longas para destinos antigos Depende da rede de destino; não é regra geral

Estudos publicados pelo Facebook Engineering (2015) e pela equipe de rede do Google mostraram resultados variados. Em redes móveis, onde o CGNAT é predominante, o IPv6 apresentou latência consistentemente menor. Em redes fixas com NAT simples, a diferença foi marginal ou inexistente. O fator mais relevante para latência continua sendo a qualidade da rota BGP, a distância geográfica entre os pontos e a carga dos links intermediários.

Segurança: IPsec, firewall e superfície de ataque

O IPv6 foi projetado com IPsec como parte integral da especificação (RFC 4301). No IPv4, o IPsec é uma extensão opcional adicionada retroativamente. Na prática, porém, a maioria das implementações modernas suporta IPsec em ambos os protocolos de forma equivalente.

Comparativo de segurança entre IPv4 e IPv6
Aspecto IPv4 IPv6
IPsec Opcional, retroativo Mandatório na especificação
NAT como barreira Muitos dependem do NAT como proteção implícita Sem NAT; firewall explícito obrigatório
Scanning de rede Varrer um /24 leva segundos Varrer um /64 é computacionalmente inviável
Resolução de vizinhança ARP (vulnerável a spoofing) NDP (SEND mais seguro, mas pouco implantado)
Dual stack N/A Dobra a superfície de ataque a monitorar
Privacy extensions Não aplicável RFC 4941: endereços temporários para saída dificultam rastreamento

Um ponto frequentemente citado como vantagem do IPv6 em segurança é a inviabilidade de scanning. Com 264 endereços possíveis em um /64, um scanner que testasse um endereço por microssegundo levaria 580.000 anos para cobrir a sub-rede. Na prática, ataques contra redes IPv6 usam outras técnicas: captura de tráfego multicast, análise de DNS para descobrir hosts e exploração de prefixos link-local previsíveis derivados do MAC address.

Autoconfiguração: DHCP vs SLAAC

Uma das diferenças mais visíveis no dia a dia é como dispositivos obtêm seus endereços.

IPv4: DHCPv4

No IPv4, o método padrão é o DHCPv4. O dispositivo envia um broadcast DHCP Discover; o servidor responde com um endereço IP, máscara, gateway e DNS (o OFFER). O dispositivo confirma com um REQUEST e o servidor finaliza com um ACK. Sem DHCP, o endereço precisa ser configurado manualmente.

IPv6: SLAAC e DHCPv6

No IPv6, o mecanismo padrão é o SLAAC (Stateless Address Autoconfiguration, RFC 4862). Ao conectar à rede, o dispositivo ouve Router Advertisements do roteador local e gera seu próprio endereço combinando o prefixo anunciado com um identificador gerado localmente. Pode ser derivado do MAC address (EUI-64) ou gerado aleatoriamente (privacy extensions, RFC 4941).

O DHCPv6 também existe e pode operar de dois modos. No modo stateful, o servidor atribui endereço, gateway e DNS, similar ao DHCPv4. No modo stateless, o endereço vem via SLAAC e o DHCPv6 fornece apenas informações complementares como o servidor DNS. Redes corporativas frequentemente usam DHCPv6 stateful para manter controle centralizado da alocação de endereços.

Como o SLAAC gera um endereço IPv6

  1. Geração do endereço link-local. Ao ativar a interface, o dispositivo gera automaticamente um endereço fe80::/10 usando EUI-64 ou valor aleatório. Esse endereço é usado para comunicação na rede local antes de obter o endereço global.
  2. Duplicate Address Detection (DAD). O dispositivo envia um Neighbor Solicitation para verificar se o endereço link-local já está em uso. Se ninguém responder, o endereço é assumido como único.
  3. Solicitação de Router Advertisement. O dispositivo envia um Router Solicitation para o endereço multicast ff02::2 (todos os roteadores). O roteador responde com um Router Advertisement contendo o prefixo global (ex: 2804:7f4:1::/64) e informações de configuração.
  4. Formação do endereço global. O dispositivo combina o prefixo /64 anunciado com um identificador de 64 bits gerado localmente (EUI-64 ou aleatório via privacy extensions). O resultado é o endereço IPv6 global unicast.
  5. DAD para o endereço global. Um segundo ciclo de Duplicate Address Detection confirma que o endereço global também é único no segmento. Após confirmação, o dispositivo está pronto para comunicação IPv6.

Dual stack e mecanismos de transição

A maioria das redes opera em dual stack: IPv4 e IPv6 ativos simultaneamente na mesma interface. O sistema operacional escolhe qual versão usar para cada conexão via o algoritmo Happy Eyeballs (RFC 8305), que tenta IPv6 primeiro e faz fallback para IPv4 se a conexão IPv6 não responder em tempo adequado.

Mecanismos de transição IPv4/IPv6
Mecanismo Como funciona Onde é usado
Dual stack IPv4 e IPv6 ativos simultaneamente; Happy Eyeballs escolhe o melhor Maioria das redes em transição
DS-Lite IPv6 nativo até o CPE; IPv4 tunelado sobre IPv6 dentro da rede do provedor ISPs que querem reduzir consumo de IPs públicos IPv4
NAT64 + DNS64 Gateway traduz pacotes IPv6 para IPv4; DNS64 sintetiza registros AAAA Redes IPv6-only com servidores IPv4 legados
464XLAT CLAT no dispositivo (NAT46) + PLAT no provedor (NAT64) Redes móveis 5G IPv6-only, como TIM Brasil
MAP-E / MAP-T Mapeamento determinístico IPv4 em IPv6, sem estado intermediário ISPs de grande escala com infraestrutura IPv6 completa

Tráfego IPv6 vs IPv4 no Brasil (2024)

  • IPv6 - 50,4%
  • IPv4 - 49,6%

Fonte: NIC.br, dados de 2024. O Brasil cruzou a marca de 50% de tráfego IPv6 em 2024, puxado principalmente pelas grandes operadoras móveis.

Adoção no Brasil

O Brasil alcançou 50,4% de tráfego IPv6 em 2024, conforme dados publicados pelo NIC.br. Em 2025, estimativas do Google IPv6 Statistics apontam o Brasil entre os países com maior volume absoluto de tráfego IPv6, embora em termos percentuais ainda fique atrás de líderes como Índia, França, Alemanha e Estados Unidos.

O avanço foi puxado principalmente pelas grandes operadoras. Vivo, Claro e TIM implantaram IPv6 nas redes de banda larga fixa e móvel nós últimos anos. A TIM opera parte da rede 5G em modo IPv6-only com 464XLAT para compatibilidade IPv4. A Anatel publicou regulamentação exigindo suporte a IPv6 em equipamentos homologados, e desde 2023 não certifica mais dispositivos que operem exclusivamente em IPv4.

O gargalo identificado pelo NIC.br e pelo CGI.br é a ponta da rede: equipamentos CPE (roteadores residenciais), smart TVs, consoles de jogos e câmeras IP de fabricantes menores ainda têm suporte IPv6 limitado ou inexistente. Uma smart TV sem suporte IPv6 impede que o IPv6 seja ativado de ponta a ponta no segmento residencial, mesmo que a operadora ofereça conectividade IPv6.

O prefixo LACNIC para IPv6 brasileiro é 2804::/12. As faixas mais comuns vistas em traceroutes de conexões brasileiras incluem 2804:7f4::/32 (Vivo) e sub-blocos dentro do espaço LACNIC para Claro e TIM. O portal IPv6 do NIC.br mantém estatísticas atualizadas de adoção por ASN e por estado.

Perguntas frequentes sobre IPv4 vs IPv6

Qual a principal diferença entre IPv4 e IPv6?

A diferença fundamental está no tamanho do endereço. IPv4 usa 32 bits (aproximadamente 4,3 bilhões de endereços); IPv6 usa 128 bits, oferecendo 2 elevado a 128 combinações, ou seja, mais de 3,4 × 10 elevado a 38. Na prática, o IPv6 também elimina a necessidade de NAT, usa autoconfiguração SLAAC, tem cabeçalho de tamanho fixo e substitui o ARP pelo NDP.

O IPv4 vai deixar de existir?

Não no curto prazo. O IPv4 e o IPv6 coexistem em regime de dual stack na maioria das redes. A migração total para IPv6-only é gradual e pode levar décadas, pois muitos sistemas legados dependem exclusivamente do IPv4. Alguns provedores móveis já operam IPv6-only com mecanismos de compatibilidade (464XLAT) para serviços que ainda exigem IPv4.

IPv6 é mais rápido que IPv4?

Não automaticamente. O cabeçalho simplificado e a ausência de NAT podem reduzir latência em cenários específicos, especialmente em redes móveis com CGNAT. Em conexões fixas com NAT simples, a diferença é geralmente marginal. O fator mais relevante para latência na maioria dos casos continua sendo a qualidade da rota BGP e a infraestrutura do provedor.

O que é CGNAT e por que ele existe?

CGNAT (Carrier-Grade NAT, RFC 6598) é a técnica usada por provedores para compartilhar um único IP público entre múltiplos assinantes, usando a faixa 100.64.0.0/10 como espaço intermediário. Existe porque os endereços IPv4 públicos se esgotaram e o CGNAT adia a necessidade de migrar para IPv6. A maioria dos ISPs residenciais brasileiros usa CGNAT.

O que é dual stack?

Dual stack é a operação simultânea de IPv4 e IPv6 na mesma interface de rede. O sistema operacional escolhe qual versão usar para cada conexão via o algoritmo Happy Eyeballs (RFC 8305), que prioriza IPv6 quando disponível e faz fallback automático para IPv4 se necessário. A maioria das redes modernas opera em dual stack durante a transição para IPv6.

Como saber se minha conexão usa IPv6?

Acesse a página Meu IP deste site. Se o endereço exibido for no formato com dois-pontos e dígitos hexadecimais (como 2804:7f4:1:2::100), você está usando IPv6. Se for no formato decimal pontuado (como 187.32.45.100), está usando IPv4. No Linux, o comando ip -6 addr show lista os endereços IPv6 ativos da máquina.

Subnetting funciona igual em IPv6?

O conceito é o mesmo (dividir em blocos por prefixo), mas a prática difere. No IPv6, a sub-rede padrão de LAN é /64, que tem 2 elevado a 64 endereços de host, tornando o planejamento de hosts dentro do segmento irrelevante. O planejamento em IPv6 foca em quantas sub-redes o site precisa, não em quantos hosts por sub-rede.

IPv6 é mais seguro que IPv4?

Depende do aspecto. O IPv6 torna o scanning de rede praticamente inviável (2 elevado a 64 endereços por /64). O IPsec é mandatório na especificação. Mas o IPv6 elimina o NAT, que muitos usavam como barreira implícita, exigindo firewall explícito. Em dual stack, o firewall precisa cobrir ambas as versões. Brecha real: ativar IPv6 no sistema operacional sem criar regras de firewall IPv6 equivalentes às do IPv4.

O que é SLAAC e como ele se compara ao DHCP?

SLAAC (Stateless Address Autoconfiguration, RFC 4862) é o mecanismo padrão do IPv6 para configuração automática de endereços. Diferente do DHCPv4, que requer um servidor central que distribui endereços, o SLAAC permite que cada dispositivo gere seu próprio endereço combinando o prefixo anunciado pelo roteador com um identificador gerado localmente. Não há servidor de estado a manter; cada dispositivo é autossuficiente na geração do seu endereço IPv6.

Qual o prefixo IPv6 usado no Brasil?

O bloco IPv6 principal alocado pelo LACNIC para a América Latina é o 2804::/12. Conexões brasileiras geralmente têm endereços dentro desse espaço. A Vivo usa blocos como 2804:7f4::/32; a Claro e a TIM têm alocações dentro do mesmo espaço LACNIC. Se o endereço exibido no Meu IP começa com 2804, é um endereço IPv6 público brasileiro na faixa LACNIC.

O que é 464XLAT e por que a TIM usa?

464XLAT é um mecanismo de transição que combina dois componentes: CLAT (no dispositivo do usuário, traduz IPv4 para IPv6) e PLAT (no provedor, traduz IPv6 de volta para IPv4 para chegar a servidores legados). Permite que a rede do provedor opere exclusivamente em IPv6 internamente, reduzindo custo com endereços IPv4 públicos. A TIM implementou 464XLAT em parte da rede 5G brasileira. Dispositivos modernos com Android e iOS já suportam CLAT nativamente.

A transição de IPv4 para IPv6 não é um evento com data definida: é um processo gradual que o Brasil já tem bem encaminhado, com mais de 50% do tráfego de internet rodando em IPv6 em 2024 segundo o NIC.br. O IPv4 continuará coexistindo em dual stack por muitos anos. Para quem projeta redes hoje, a recomendação prática é planejar em IPv6 primeiro e manter compatibilidade IPv4 onde necessário, não o contrário. As referências técnicas fundamentais são a RFC 791 (IPv4), a RFC 8200 (IPv6) e a RFC 8305 (Happy Eyeballs). Verifique sua conexão na página Meu IP e leia O que é subnet para entender como dividir os espaços de endereçamento de cada versão.

Referências bibliograficas

  • Tanenbaum, A. S. Redes de Computadores. 4a edição. Campus, 2004. (Capitulo 5 - IPv4, p. 334-355)
  • Peterson, L. L.; Davie, B. S. Redes de Computadores: Uma Abordagem de Sistemas. 5a edição. Elsevier, 2013. (Capitulos 3 e 4 - IPv4 e IPv6)
  • Fernandez, M. P. Rede de Computadores. UAB/UECE, 2019. (Secao 1.1 - IPv4 e Secao 1.5 - IPv6, p. 119-136)
  • Postel, J. RFC 791 - Internet Protocol (IPv4). IETF, setembro 1981.
  • Deering, S.; Hinden, R. RFC 8200 - Internet Protocol, Version 6 (IPv6) Specification. IETF, julho 2017.
  • NIC.br - Métricas de adocao do IPv6 no Brasil. Disponível em https://ipv6.br

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