RFC, o que são os padrões que governam a internet
RFC (Request for Comments), os documentos tecnicos do IETF, o RFC 1 de 1969, Jon Postel e Vint Cerf e os 10 RFCs que todo profissional de redes conhece.
RFC significa Request for Comments. É o formato em que a internet decide como funcionar. Toda vez que você usa IP, DNS, HTTP, TCP, TLS ou qualquer protocolo de rede, você está usando tecnologia descrita em algum RFC. O primeiro RFC foi publicado em 7 de abril de 1969 por Steve Crocker. Hoje existem mais de 9.500 RFCs publicados pelo IETF. Este artigo explica o que é um RFC, como o processo de padronização funciona, quem define os padrões da internet (IETF, IAB, IESG), e lista os 10 RFCs mais fundamentais que qualquer pessoa que trabalha com redes deve conhecer.
Neste artigo
- O que é um RFC: Request for Comments
- História: RFC 1, Steve Crocker e a ARPANET
- IETF: quem escreve os padrões da internet
- Categorias de RFC: Standard, Informational, BCP e outros
- Como um RFC se torna um padrão
- 10 RFCs fundamentais que todo profissional de redes deve conhecer
- Jon Postel e Vint Cerf: os autores que moldaram a internet
- RFCs no Brasil: NIC.br, CGI.br e RFCs relevantes para o contexto brasileiro
- As organizações por tras dos RFCs: IETF, IAB, IESG e IANA
- Como um Internet-Draft vira RFC: o processo completo
- As categorias de RFC: Standards Track, BCP, Informational e Experimental
- RFCs notaveis além dos fundamentais
- Como ler um RFC: estrutura e convenções
- RFCs com impacto direto na internet brasileira
- Perguntas frequentes
O que é um RFC: Request for Comments
RFC (Request for Comments) é uma publicação técnica numerada que descreve protocolos, procedimentos, programas ou conceitos relacionados ao funcionamento da internet. O nome "Request for Comments" vem da natureza colaborativa original: os primeiros documentos pediam literalmente comentários da comunidade de pesquisa. O artigo O que é IP mostra um exemplo prático de padrão nascido de um RFC.
Cada RFC recebe um número único e nunca é editado após publicação. Se um RFC é atualizado ou substituído, um novo RFC é publicado com o novo número. O RFC antigo fica disponível para consulta com uma nota indicando que foi obsoleto (Obsoleted by RFC XXXX) ou atualizado (Updated by RFC XXXX).
História: RFC 1, Steve Crocker e a ARPANET
O RFC 1 foi publicado em 7 de abril de 1969 por Steve Crocker, estudante de pós-graduação da UCLA. O documento se chamava "Host Software" e descrevia o software necessário para os computadores da ARPANET se comunicarem. Crocker tinha 24 anos.
O formato RFC nasceu por necessidade prática. Os pesquisadores da ARPANET precisavam de um jeito de documentar decisões técnicas e coletar feedback de sites geograficamente distribuídos. Usar o prefixo "Request for Comments" foi uma escolha deliberada para tornar o processo menos formal e mais colaborativo.
Jon Postel foi o editor dos RFCs de 1969 até sua morte em 1998. Ele definiu os números de protocolo IP (RFC 791, 1981), o TCP (RFC 793, 1981), o ICMP (RFC 792, 1981), o DNS (com Paul Mockapetris no RFC 882/883, 1983) e dezenas de outros padrões fundamentais. O obituário da internet quando Postel morreu foi: "A Internet perdeu sua consciência."
"Be conservative in what you do, be liberal in what you accept from others."
Jon Postel, RFC 793 (TCP), setembro 1981, o princípio de robustez, também conhecido como "Lei de Postel"
Vint Cerf e Bob Kahn publicaram o protocolo TCP/IP no IEEE Transactions on Communications em 1974 antes de entrar no processo RFC formal. O RFC 675 de 1974 foi a primeira versão do TCP no formato RFC. Cerf presidiu o ISOC (Internet Society) de 1992 a 1995 e hoje trabalha como Chief Internet Evangelist no Google.
O ritmo de publicação cresceu junto com a internet: os primeiros 1.000 RFCs cobriram de 1969 a 1990, e até maio de 2026 o total ultrapassa 9.700 documentos, numa taxa de cerca de 400 a 500 novos RFCs por ano.
IETF: quem escreve os padrões da internet
O IETF (Internet Engineering Task Force) é a organização que produz a maioria dos RFCs técnicos. Fundado em 1986, o IETF é uma organização aberta: qualquer pessoa pode participar das listas de discussão e das reuniões (realizadas três vezes por ano em diferentes países). Não há votação formal: o processo usa "rough consensus and running code" (consenso aproximado e código funcionando).
| Organização | Sigla | Função |
|---|---|---|
| Internet Engineering Task Force | IETF | Desenvolve padrões técnicos da internet (protocolos, arquitetura) |
| Internet Architecture Board | IAB | Supervisão arquitetural da internet; nomeia membros do IESG e RFC Editor |
| Internet Engineering Steering Group | IESG | Aprova publicação de RFCs no trilho Standards Track |
| Internet Research Task Force | IRTF | Pesquisa de longo prazo; publica RFCs Informational e Experimental |
| Internet Society | ISOC | Suporte institucional e financeiro ao IETF; defende internet aberta |
| Internet Assigned Numbers Authority | IANA | Coordena números de protocolo IP, portas TCP/UDP, códigos ICMP |
Categorias de RFC: Standard, Informational, BCP e outros
Nem todo RFC é um padrão. Existem sete categorias de status, e quatro streams (fontes) de publicação.
| Status | Abreviação | Significado | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Internet Standard | STD | Padrão maduro e estável, amplamente implementado | STD 5 = IPv4 (RFC 791), STD 7 = TCP (RFC 793) |
| Proposed Standard | PS | Caminho para Standard; requer duas implementações independentes | RFC 8200 (IPv6), RFC 9114 (HTTP/3) |
| Best Current Practice | BCP | Recomendações operacionais e procedimentos, não protocolos | BCP 38 (filtrar spoofing), BCP 47 (tags de idioma) |
| Informational | INFO | Informação geral, não é padrão IETF. Pode vir de qualquer fonte. | RFC 2324 (protocolo de bule de chá, 1998, brincadeira), RFC 8700 |
| Experimental | EXP | Protocolo experimental, não pronto para implantação em produção | RFC 9000 (QUIC era EXP antes de virar PS) |
| Historic | HIST | Obsoleto, sem uso. Mantido para registro histórico. | RFC 675 (TCP v1, 1974) |
| Unknown | UNK | Status não determinado (RFCs muito antigos sem classificação formal) | RFC 1 (1969) |
Como um RFC se torna um padrão
- Um indivíduo ou grupo escreve um Internet-Draft (I-D), documento temporário com validade de 6 meses disponível em datatracker.ietf.org.
- O I-D é discutido em listas de e-mail de Working Groups (WGs) do IETF especializados (ex: WG "tcpm" para TCP, WG "tls" para TLS).
- Após consenso no WG, o documento é submetido ao IESG para revisão. O IESG pode aprovar, rejeitar ou pedir modificações.
- Aprovado pelo IESG, o documento vai para o RFC Editor, que faz revisão editorial, atribui número de RFC e publica.
- Para atingir status Internet Standard (de Proposed Standard), o RFC precisa de pelo menos dois anos como Proposed Standard, com múltiplas implementações interoperáveis documentadas.
10 RFCs fundamentais que todo profissional de redes deve conhecer
| RFC | Título | Ano | Autor(es) | Importância |
|---|---|---|---|---|
| RFC 791 | Internet Protocol (IPv4) | 1981 | Jon Postel | Define o IPv4: cabeçalho, endereçamento, fragmentação. Base de toda a internet atual. |
| RFC 793 | Transmission Control Protocol | 1981 | Jon Postel | Define o TCP: conexão, 3-way handshake, controle de fluxo, confiabilidade. |
| RFC 826 | ARP | 1982 | David C. Plummer | Define o ARP: resolução de IP para MAC em redes Ethernet. |
| RFC 1034/1035 | Domain Name System | 1987 | P. Mockapetris | Define o DNS: hierarquia de nomes, tipos de registro, protocolo de consulta. |
| RFC 1918 | Endereços IPv4 privados | 1996 | Rekhter et al. | Define as faixas 10/8, 172.16/12, 192.168/16 para uso privado. |
| RFC 8200 | Internet Protocol Version 6 | 2017 | Deering, Hinden | Define o IPv6: endereços 128 bits, cabeçalho 40 bytes fixo, extensões. |
| RFC 4271 | BGP-4 | 2006 | Rekhter, Li, Hares | Define o BGP-4: protocolo de roteamento entre sistemas autônomos. |
| RFC 6598 | CGNAT / Shared Address Space | 2012 | Weil et al. | Define a faixa 100.64.0.0/10 para CGNAT em provedores. Relevante para Brasil. |
| RFC 8484 | DNS over HTTPS (DoH) | 2018 | Hoffman, McManus | Define DNS sobre HTTPS: privacidade nas consultas DNS. |
| RFC 9000 | QUIC | 2021 | Iyengar, Thomson | Define o QUIC: transporte sobre UDP com TLS integrado. Base do HTTP/3. |
Jon Postel e Vint Cerf: os autores que moldaram a internet
Jon Postel (1943-1998) e Vint Cerf (1943-) são os dois nomes mais importantes na história dos RFCs. Suas contribuições definem o que a internet e hoje.
Postel foi o editor da RFC Series por quase 30 anos. Além de editar, ele foi autor de alguns dos RFCs mais fundamentais: RFC 791 (IPv4), RFC 793 (TCP), RFC 792 (ICMP), RFC 821 (SMTP), RFC 854 (TELNET). Em 1998, oito dias antes de morrer de cirurgia cardíaca, ele controlava os root nameservers da internet temporariamente ao redirecionar tráfego dos 12 root servers americanos para 8 servidores alternativos, demonstrando a fragilidade da governança da internet. Esse evento acelerou a criação da ICANN.
"Se os padres são aqueles que interpretam os evangelhos, Jon é o Papa."
Frase atribuída a colegas de Postel no ISI, citada em reportagem da Wired após sua morte em 1998
Vint Cerf é co-inventor do TCP/IP com Bob Kahn. Além do protocolo central, Cerf trabalhou no desenvolvimento do MCI Mail (um dos primeiros sistemas de e-mail Internet-conectado em 1989), presidiu o ISOC e hoje é Chief Internet Evangelist no Google. Em 2004, Cerf e Kahn receberam o Prêmio Turing da ACM, o "Nobel da computação".
RFCs no Brasil: NIC.br, CGI.br e RFCs relevantes para o contexto brasileiro
O Brasil tem participação ativa na governança da internet. O CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil) e o NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR) representam interesses brasileiros em fóruns internacionais como ICANN, IETF e IGF (Internet Governance Forum).
Alguns RFCs têm relevância especial para o contexto brasileiro. A RFC 6598 (CGNAT, faixa 100.64.0.0/10) é amplamente usada por provedores residenciais brasileiros que ainda não completaram a migração para IPv6. A RFC 1918 define as faixas IP privadas usadas em todas as redes locais do Brasil. A RFC 8200 (IPv6) é cada vez mais relevante com a adoção brasileira de IPv6 ultrapassando 50% em 2025.
Distribuição aproximada dos ~9.500 RFCs publicados por categoria
- Proposed Standard / Standard (~45%)
- Informational (~23%)
- Best Current Practice (~14%)
- Historic (~9%)
- Experimental / Outros (~9%)
Fonte: rfc-editor.org (estimativa maio 2026)
As organizações por tras dos RFCs: IETF, IAB, IESG e IANA
A governança da internet por meio de RFCs envolve um ecossistema de organizações interligadas, cada uma com papel específico no processo de padronização. Entender essa estrutura é fundamental para quem quer participar do processo ou simplesmente entender a legitimidade dos padrões que usamos.
A ISOC (Internet Society), fundada em 1992, é a organização guardiã da missão da internet aberta. Sedia legalmente a IETF e o IAB, mas sem autoridade técnica sobre padrões. Qualquer pessoa pode se tornar membro da ISOC. O IAB (Internet Architecture Board) supervisiona a arquitetura geral da internet e nomeia o IESG. Também é responsável pelas relações com outros organismos de padronização como ISO e IEEE.
O IESG (Internet Engineering Steering Group) é formado pelos Area Directors de cada área técnica da IETF. As áreas incluem: Applications and Real-Time, Internet, Operations and Management, Routing, Security, Transport e General. Cada AD supervisiona Working Groups na sua área e vota na aprovação de documentos que se tornarão RFC.
A IANA (Internet Assigned Numbers Authority), operada pela ICANN desde 1998, gerencia os recursos de numeração críticos da internet: coordena a distribuição de blocos IPv4/IPv6 para os cinco RIRs regionais (ARIN para América do Norte, LACNIC para América Latina/Caribe, RIPE NCC para Europa, AFRINIC para África, APNIC para Ásia-Pacífico), mantém o registro de números de porta (0-65535), protocolos IP, códigos ICMP, códigos HTTP de status e a zona raiz do DNS.
No Brasil, o CGI.br (Comite Gestor da Internet no Brasil) é o órgão colegiado responsável pela governança da internet no país. O NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), seu executivo, representa o Brasil no ICANN, no LACNIC e coordena o registro .br, a operação do IX.br e diversas iniciativas de pesquisa e medição da internet nacional.
Como um Internet-Draft vira RFC: o processo completo
Transformar uma ideia técnica em RFC leva tipicamente de 2 a 5 anos. O processo é aberto, público e baseado em consenso, não em autoridade central. Qualquer pessoa pode submeter um Internet-Draft, mas transformar um draft em RFC requer revisão técnica rigorosa e consenso da comunidade IETF.
- Submissão do Internet-Draft: O autor submete um documento em formato específico (.txt ou .xml) ao IETF Datatracker. O draft fica disponível publicamente por 6 meses renováveis. Nomes seguem o padrão
draft-[autor]-[area]-[topico]-[versao].txt. Exemplo:draft-ietf-tls-rfc8446bis-10. - Discussão em Working Group (WG): O draft e discutido numa lista de e-mail pública e em sessões presenciais nas três reuniões anuais do IETF (normalmente em cidades diferentes, com participação online). Qualquer pessoa pode comentar. A decisão é por "rough consensus", não por votação formal.
- Last Call: O IESG anuncia um "IETF Last Call" de 2-4 semanas para comentários finais de toda a comunidade. É a última chance de levantar preocupações técnicas.
- IESG Review: Os ADs (Area Directors) do IESG revisam o documento tecnicamente. Podem solicitar mudanças (DISCUSS ballot), adicionar comentários ou aprovar. Este é frequentemente o passo mais demorado.
- Publicação pelo RFC Editor: Após aprovação do IESG, o RFC Editor realiza edição final (formatação, referências, consistência) e publica o RFC com número único permanente. Números são sequenciais e nunca reutilizados.
As categorias de RFC: Standards Track, BCP, Informational e Experimental
Nem todo RFC é um padrão técnico obrigatório. O sistema RFC usa categorias para indicar o nível de maturidade e obrigatoriedade de cada documento. Entender essas categorias evita confundir um documento informativo com um padrão de implementação.
O Standards Track é o caminho para padrões de implementação. Um documento Standards Track passa por três estados: Proposed Standard (proposta com especificação completa, publicada para implementação e feedback), Draft Standard (historicamente existia, abolido pelo RFC 6410 em 2011), e Internet Standard (STD), o nível mais alto, exige pelo menos duas implementações interoperáveis independentes. Exemplos: STD 5 = IP (RFC 791), STD 6 = UDP (RFC 768), STD 7 = TCP (RFC 793).
Os BCP (Best Current Practice) documentam as melhores práticas operacionais e de configuração que não são especificações técnicas mas devem ser seguidas. Exemplos: BCP 38 (RFC 2827) define filtros de ingress para prevenir IP spoofing. BCP 84 (RFC 3704) estende o BCP 38. BCP 194 (RFC 7942) define como citar implementações em especificações. BCPs não obsoletam: são complementados por novos BCPs quando as melhores práticas evoluem.
Informational são documentos que fornecem informação útil sem ser padrões: análises técnicas, surveys, descrições de protocolo proprietário, documentação de serviços experimentais, etc. O famoso RFC 2324 (protocolo de bule de chá, HTCPCP) é Informational.
Experimental documenta protocolos ou mecanismos em fase de experimentação. Não devem ser deployados em produção sem consideração cuidadosa. Muitos padrões atuais começaram como Experimental antes de migrar para Standards Track.
Historic são documentos que descrevem tecnologias ou práticas obsoletas, mantidos por razões históricas e de referência. O RFC 1058 (RIPv1) é Historic, substituído pelo RFC 2453 (RIPv2).
RFCs notaveis além dos fundamentais
Alguns RFCs são famosos fora do círculo técnico. A cultura de humor da IETF produz "Experimental" e "Informational" RFCs brincalhoes, especialmente publicados em 1o de abril.
| RFC | Título | Categoria | Por que é famoso |
|---|---|---|---|
| RFC 1 | Host Software | Histórico | Primeiro RFC de todos (1969, Steve Crocker, UCLA). Define formato informal de documentos técnicos da ARPANET. |
| RFC 1149 | Standard for the Transmission of IP Datagrams on Avian Carriers | Experimental (1 abr. 1990) | IP sobre pombos-correio. Foi implementado pela Bergen Linux Users Group em 2001: dos 9 pacotes enviados, 4 chegaram, cerca de 55% de perda. |
| RFC 2549 | IP over Avian Carriers with Quality of Service | Experimental (1 abr. 1999) | Continuação do RFC 1149, com QoS para pombos. Inclui suporte a "Pigeon Fancier" como modelo de serviço. |
| RFC 3514 | The Security Flag in the IPv4 Header | Humor (1 abr. 2003, Steve Bellovin) | Propoe o "Evil Bit" no header IPv4: pacotes maliciosos devem setar o bit para avisar firewalls. Citado como exemplo de absurdo de segurança. |
| RFC 7168 | The Hyper Text Coffee Pot Control Protocol for Tea Efflux Appliances (HTCPCP-TEA) | Humor (1 abr. 2014) | Extensão do RFC 2324 (HTCPCP, protocolo de cafeteira). Define como preparar cha via HTTP. Status HTTP 418 "I'm a teapot" veio daqui. |
| RFC 8700 | Fifty Years of RFCs | Informational (2019) | Celebra 50 anos de RFCs. Histórico completo do sistema RFC de 1969 a 2019. |
Como ler um RFC: estrutura e convenções
RFCs seguem um formato padronizado definido pelo RFC 7322 ("RFC Style Guide"). Saber navegar um RFC poupa tempo e evita mal-entendidos sobre o que é obrigatório, recomendado ou opcional.
Todo RFC começa com um bloco de metadados: número do RFC, título, autores, organização, data, status (Proposed Standard, BCP, etc.), categoria, e referências a documentos que este RFC obsoleta ou atualiza. O Abstract resume o propósito em 1-3 parágrafos. A seção Introduction contextualiza o problema e a solução.
A convenção mais importante de um RFC é o uso das palavras-chave de RFC 2119 (que define o vocabulário): MUST (obrigatório, sem exceção), SHOULD (recomendado fortemente, com justificativa válida para desviar), MAY (opcional), MUST NOT (proibido), SHOULD NOT (não recomendado). Essas palavras em maiúsculo têm significado técnico preciso. Um implementador que ignora um MUST é não-conforme; ignorar um SHOULD pode ser aceitável com justificativa.
A seção de IANA Considerations lista novos registros que o IANA deve criar (novos números de porta, códigos de status, tipos de mensagem). A seção de Security Considerations é obrigatória e descreve as implicações de segurança do protocolo ou mecanismo descrito. A seção de References distingue entre "Normative References" (documentos que a implementação correta depende) e "Informative References" (contexto adicional, não obrigatório).
RFCs com impacto direto na internet brasileira
Alguns RFCs têm impacto especialmente relevante no contexto do Brasil e da infraestrutura da internet nacional:
O RFC 4632 (CIDR) possibilitou o crescimento da internet sem esgotar endereços IPv4 rapidamente. O NIC.br distribui blocos CIDR para provedores brasileiros como coordenador do LACNIC para o Brasil. O RFC 6598 define o bloco 100.64.0.0/10, usado para Carrier-Grade NAT (CGNAT), técnica amplamente adotada por provedores brasileiros de banda larga móvel e fixa que compartilham um único IPv4 público entre dezenas de usuários. A maioria dos planos residenciais de Claro, Vivo e TIM no Brasil usa CGNAT.
O RFC 8210 define o RTR Protocol, base do RPKI, que o NIC.br e o IX.br implementaram no contexto brasileiro. O Brasil tem uma das maiores taxas de adoção de RPKI na América Latina, com mais de 60% dos prefixos IPv4 do AS brasileiro cobertos por ROAs (Route Origin Authorizations) em 2024. Para entender a transição que reduz a dependência do CGNAT no longo prazo, veja IPv4 vs IPv6.
Perguntas frequentes sobre RFC
O que é RFC em redes de computadores?
RFC (Request for Comments) é uma publicação técnica numerada do IETF que define protocolos, procedimentos e padrões da internet. Cada RFC tem um número único e nunca é editado após publicação. O RFC 791 define o IPv4, o RFC 793 define o TCP, e o RFC 1034/1035 define o DNS. São documentos públicos e gratuitos em rfc-editor.org.
Quem escreve os RFCs?
Qualquer pessoa pode escrever e submeter um RFC como Internet-Draft ao IETF. A maioria vem de engenheiros de empresas de tecnologia (Google, Cisco, Microsoft, Apple, Akamai), pesquisadores universitários, e membros da comunidade de internet. O IETF é uma organização aberta: não há restrição de participação por empresa ou país.
Quantos RFCs existem?
Em maio de 2026, existem mais de 9.500 RFCs publicados. O primeiro foi o RFC 1, publicado em abril de 1969 por Steve Crocker. O IETF publica algumas centenas de novos RFCs por ano, cobrindo protocolos novos, atualizações de padrões existentes e Best Current Practices operacionais.
Todos os RFCs são padrões obrigatórios?
Não. Existem sete categorias de status: Internet Standard (padrão maduro), Proposed Standard (caminho para Standard), Best Current Practice (recomendação operacional), Informational (informação geral, não é padrão), Experimental, Historic (obsoleto) e Unknown. Só os RFCs com status Internet Standard ou Proposed Standard representam padrões técnicos IETF.
Qual foi o primeiro RFC da internet?
O RFC 1 foi publicado em 7 de abril de 1969 por Steve Crocker da UCLA. O título era "Host Software" e descrevia o software necessário para os computadores da ARPANET se comunicarem. Crocker tinha 24 anos e escolheu o título "Request for Comments" para tornar o processo informal e encorajar participação.
O que é a "Lei de Postel" do RFC 793?
A "Lei de Postel" (ou princípio de robustez) é uma frase do RFC 793 (TCP) escrita por Jon Postel: "Be conservative in what you do, be liberal in what you accept from others." Em português: seja rigoroso no que envia, tolerante com o que recebe. O princípio guiou o design de protocolos por decadas, embora pesquisadores modernos apontem que "ser liberal no que aceita" também cria vulnerabilidades de segurança.
Onde posso ler e baixar RFCs?
O repositorio oficial e rfc-editor.org. Digite o número do RFC na barra de busca ou acesse diretamente pelo URL, por exemplo rfc-editor.org/rfc/rfc791 para o IPv4. Todos os RFCs são publicados em texto puro (.txt) e HTML, gratuitamente, sem necessidade de cadastro.
RFC e a mesma coisa que ISO ou IEEE?
Não. RFC/IETF e ISO e IEEE são organizações de padronização diferentes. O IETF (RFCs) foca em protocolos de internet (IP, TCP, HTTP, DNS). A ISO publica padrões como o modelo OSI (ISO/IEC 7498). O IEEE publica padrões como Ethernet 802.3 e Wi-Fi 802.11. Os três coexistem: Ethernet (IEEE 802.3) na camada 2 carrega pacotes IP (IETF RFC 791).
O que é Best Current Practice (BCP) no contexto de RFCs?
BCP (Best Current Practice) é uma categoria de RFC que documenta práticas operacionais recomendadas para a internet, não protocolos técnicos. O BCP 38 (RFC 2827), por exemplo, recomenda que provedores filtrem pacotes com endereços IP forjados (anti-spoofing). O BCP 47 define tags de idioma. BCPs são relevantes para operadores de rede e administradores de sistema.
CGNAT tem RFC próprio?
Sim. A RFC 6598 (Weil et al., 2012) define a faixa de endereços 100.64.0.0/10 como "Shared Address Space" para uso em CGNAT por provedores de internet. Essa faixa não é roteada na internet pública, similar as faixas RFC 1918, mas destinada ao uso em redes de provedores. Provedores brasileiros como Claro, Vivo e TIM usam essa faixa em suas redes de CGNAT residencial.
Como saber se um RFC foi substituído por outro?
No rfc-editor.org, cada RFC tem uma caixa de status no topo com informações "Obsoleted by" (substituído por) ou "Updated by" (atualizado por) quando aplicável. Por exemplo, o RFC 2460 (IPv6 original de 1998) foi obsoletado pelo RFC 8200 (2017). O RFC antigo ainda está disponível, mas o RFC mais recente é a versão atual do padrão.
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